quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Planejar Transportes no Brasil

Planejar não é exatamente algo usual no Brasil, em especial o planejamento de longo prazo. Neste contexto, tenho a sensação que do pouco planejamento que fazemos, tanto no país, quanto nas empresas, estão levando em conta um processo decisório onde não está sendo privilegiado o conhecimento técnico. Assim, “generalistas” tomam decisões que caberiam normalmente aos “especialistas”.
Este processo tem nos conduzido a um ambiente que me parece meio confuso. Explico-me: soaria estranho se o leitor fosse a um cardiologista e coubesse ao paciente a explicação sobre o melhor tipo de tratamento. Logicamente faz muito mais sentido acontecer exatamente o contrário, ou seja, o cardiologista lhe pergunta os sintomas e você recebe uma prescrição do que é, para ele, a solução. Caberá, é claro, ao paciente acatar ou não a indicação médica. Entretanto, tenho observado muitos administradores se cercarem de opiniões de não especialistas nas mais diversas matérias para tomar suas decisões (sem mencionar aqui os nãoadministradores que “administram”).
Talvez isso se dê pela falta de profissionais da área de exatas, como analisado recentemente neste jornal. A ausência de profissionais de determinadas áreas do conhecimento faz com que especialistas de outras áreas invadam o território não ocupado. Não faz sentido ouvir de um economista qual é a solução de um problema cardíaco, como não terá sentido ouvir de um médico qual é a solução para um problema de logística de cargas. Problemas deste tipo esperam diagnósticos de engenheiros especialistas na área.
Aqui cabe uma ressalva, pois de fato o conhecimento é sistêmico e as fronteiras entre campos de conhecimento não são assim tão rígidas, mas o leitor certamente preferirá a opinião de um cardiologista para seu problema de coração, porque não faz o mesmo para o seu problema de transporte?
Talvez parte da origem deste comportamento venha dos milhões de técnicos de futebol que temos no país e dos milhares de pseudoeconomistas que atuavam na época da inflação alta. A propósito, tenho a sensação que existe um ambiente favorável para mais reflexões jornalísticas no que diz respeito ao Planejamento dos Transportes em nossa cidade e país, pois viveremos nos próximos anos muitos investimentos neste campo. Aliás, Manaus não está longe de tudo, ao contrário do que apregoa uma frase reiteradamente repetida. Nossa cidade está onde sempre esteve e a função dos sistemas de transporte é interligá-la ao resto do mundo.
A natureza do Planejamento dos Transportes no planeta é necessariamente algo de longo prazo, pois as execuções de investimentos são longas e o custo normalmente é muito alto e os recursos escassos. O não uso de parâmetros técnicos para decisões de investimento pode levar a um gasto exagerado ou inadequado, onde a sociedade como um todo perde. Sistemas de transportes devem privilegiar o uso de diferentes soluções, desde o uso da caminhada, até o uso do avião. O não uso da perspectiva sistêmica pode causar grandes danos.

(*) Augusto Rocha é professor universitário e Coordenador da Comissão de Logística do CIEAM/FIEAM.
Texto publicado no Jornal do Comércio / AM em 05/08/2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário